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02
out
07

Marina

Do terceiro andar de um prédio de sete, Marina olhou pela janela e viu o sol se pondo. Voltou-se para dentro e viu a última freguesa surgindo na recepção e entrando na pequena sala onde ela estava. “Merda”, pensou. “Justo essa”. Essa, era uma gorda imensa, calçando um pequeno sapato vermelho de salto alto. Imaginou que devia ser no mínimo dois números menor. Caminhava com dificuldade. Olhou para Marina, aliviada em vê-la. Caminhou vagarosamente em sua direção, mas deteve-se ao lado de uma larga cadeira de cano cromado. Jogou todo o seu peso sobre a cadeira, aliviada. Colocou os pés para o alto, lançou um olhar piedoso sobre ela. Marina deu uma última olhada na direção sol que restava nas frestas dos prédios, apanhou um banquinho que estava em sua frente e colocou-o sob os pés da gorda, que repousou-os ali.

“Graças a Deus! Não sei como foi que consegui chegar até aqui. Pode me fazer um favor, menina? Tire esses sapatos dos meus pés. Mas com cuidado. Pode ver o cantinho desse meu dedo como ficou? Por favor, Marina, faça um daqueles milagres que só você é capaz. Cuidado pra tirar o sapato. Não deixe relar na unha, pelo amor da Virgem Santíssima.”

Marina deu uma olhada no relógio digital que estava na parede da recepção. Marcava seis e vinte. Soltou um leve suspiro. “Vai cuidar bem da minha unha, não vai?”, quis saber a gorda. Marina quase não encontrou ânimo para responder. Cuidadosamente apanhou uma pequena marmita de alumínio de dentro de uma estufa. Abriu a marmita e tirou dela alguns alicates e espátulas. Olhou demoradamente para cada um deles, para escolher qualquer um deles, isso não fazia diferença. Eram todos iguais. A gorda olhava assustada, como se fosse se submeter à pior de todas as cirurgias. Esperava que Marina fizesse a melhor escolha. Finalmente ela apanhou um alicate e uma espátula. Depositou os dois objetos sobre seu banquinho e foi guardar a marmita dentro da estufa novamente. Voltou, apanhou o alicate, tocou delicadamente nos pés da gorda, que se arrepiou inteira.

“Pode me arrumar um copo d’água antes, por favor?”

Marina foi até a sala ao lado e voltou com um imenso copo cheio de água. Sentou-se aos pés da gorda, sem olhar em seu rosto. A gorda suava frio, olhando aquele alicatinho na mãos de Marina. “Merda”, pensou Marina, assim que olhou o tamanho do estrago que estava na sua frente. Olhou novamente para o relógio na recepção. “Isso vai levar muito tempo”, pensou. Decidida a não se preocupar mais com o horário, afinal aquela gorjeta compensaria qualquer hora extra, Marina iniciou a “cirurgia” com toda a delicadeza possível. “Ela tem mãos de anjos”, deve ter pensado a gorda, mas a precisão cirúrgica durou apenas alguns minutos. Aos pouco foi-se enfurecendo, esquecendo a gorjeta também gorda que viria da gorda. Não havia cuidado suficiente que resolvesse aquele problema. Uma pequena lasca de unha havia entrado na carne do dedo da gorda, infeccionando no cantinho. A dor que ela devia sentir devia ser insuportável. Marina nunca tinha visto nada daquele jeito, durante todos os seus doze anos de profissão.

Marina arrancou grossas lascas de unha, imensos pedaços de cutículas, bifes, tudo o que pode arrancar daqueles pés de calcanhares cascudos e nojentos. Deixava cair propositadamente muitos pedaços de tudo aquilo dentro daquele indefectível sapatinho envernizado.

“Cuidado, Marina”, gritou a gorda.

“Eu não posso fazer nada, dona Eva. É muito difícil cuidar dos seus pés. A senhora não vai poder calçar nada durante uns dois ou três dias.

“E como é que faço, Marina? Eu tenho que ir ao bingo amanha a noite.”

“Nada de sapatos”, sentenciou ela, como se fosse uma doutora diante do receituário e da paciente. “Vou dar uma pomadinha pra senhora colocar nessa unha. Em dois dias vai estar nova e aí sim, a senhora vai poder calçar qualquer um dos seus cinqüenta e oito sapatinhos. São cinqüenta e oito, não são?”

“Não são cinqüenta e oito. São setenta e dois. Você está cansada de saber isso. Acho que faz de propósito, Marina, só para me provocar. Quer que eu fique em casa o final de semana todo? De jeito nenhum. Vou sair de qualquer jeito.

“A senhora é quem sabe. Na semana que vem a senhora volta e a gente vê o que faz.”

“O que é que eu vou fazer em casa o final de semana todo?”

“A senhora tem computador?”

“Computador? Eu não sei mexer nem numa calculadora”.

“Que pena”, pensou Marina, lançando para a gorda um sorrisinho cínico e irônico.

Da porta da recepção, Marina observava a gorda descendo a escada com dificuldade, calçando com muito custo um velho chinelinho que ela mantinha no armário, para emprestar para alguém que precisasse. Isso lhe rendeu uma polpuda gorjeta. Sentia pena da gorda, por isso permaneceu ali, até que ela desaparecesse ao fim da escada. Ouviu o motorista abrindo a porta do carro e a gorda resmungando qualquer coisa, jogando o ódio que ela sentia de Marina, no velho e acabado motorista. O carro partiu. O relógio digital marcava sete e vinte e oito.

“Finalmente estamos livre”, disse a recepcionista, sorrindo para ela. Marina foi até a pequena salinha nos fundos, abriu seu armário e pegou sua bolsa. Como sempre, conferiu o conteúdo da bolsa. Não que ela fosse uma pessoa desconfiada, mas duas colegas suas já haviam sentido falta de objetos pessoais e dinheiro de dentro das bolsas nos armários. Desconfiavam do velho vigia, que vez ou outra entrava ali, com a desculpa de tomar um cafezinho ou usar o banheiro. Não sentiu falta de nada. Pegou suas coisas e se foi. A recepcionista fechou a porta, conferindo várias vezes.

“Vai direto pra casa?”, perguntou.

“Vou passar no supermercado antes. Quero comprar alguma coisa pro final de semana”, respondeu Marina.

“Pretende fazer alguma coisa diferente?”

“Quero ficar em casa. Não quero sair nem pra comprar comida. Por isso vou comprar tudo agora.”

“Posso ir com você? Tenho que comprar umas coisinhas.”

“Se quiser…”. Marina não se importou. Continuou descendo a escada, sem esperar a colega. Ela alcançou Marina logo depois.

Sem trocar nenhuma palavra, as duas caminharam duas quadras até chegar a um grande supermercado. A recepcionista finalmente quebrou o silêncio.

“Não vai fazer nada no final de semana?”

Marina não respondeu. Apenas acenou com a cabeça, negativamente.

“Eu também não vou. Vou aproveitar para lavar minhas roupas e dar uma arrumação na casa. Temos de aproveitar o fim de semana pra essas coisas, né?”

“Você devia comprar uma máquina de lavar roupas e uma secadora.”

“Você está louca? Com o salário que eu ganho? Você ainda tem mais sorte. Tem muitas clientes. Deve ter boas gorjetas. Eu não. Recepcionista não tem muita sorte naquele lugar. Eu queria ser como você.”

Marina não respondeu nada. Pegou um carrinho e foi seguindo por um corredor qualquer, olhando distraidamente para uma infinidade de frascos coloridos. Foi deixando a colega para trás, que deteve-se diante dos xampus. Entrou em outro corredor e seguiu instintivamente para o setor de macarrões instantâneos. Vinte e poucos minutos depois, não mais que isso, já estava na fila de caixas. A amiga já passava num outro caixa com poucas coisas: cotonetes, absorvente intimo, pacotes de bolacha de água e sal, um litro de leite, e um tubo de pasta de dente. Marina achou graça em ver um garoto colocando tudo aquilo dentro de uma sacola plástica. Pensou no cotonete. Por que é que ela comprava cotonetes? Na clínica de estética onde trabalhavam havia toneladas de cotonetes. Cotonete, algodão, acetona, pedra-ume, lixa, tudo o que fosse preciso para cuidar da beleza pessoal.

Marina riu novamente quando pensou na palavra beleza. A colega não tinha muita noção do que era isso. Tinha os cabelos sebosos, buracos de acne… Só estava naquele emprego por ser sobrinha da proprietária. Na verdade podia ser chamada de ajudante de recepcionista, pois não fazia nada além de atender telefonemas e ficar depois do horários para eventuais atendimentos. Como naquele dia, com a gorda. Ela apanhou sua sacola, deu uma olhada para Marina, que fingiu não vê-la, e se foi. Marina olhou na direção do estacionamento do supermercado e pôde vê-la uma última vez, desaparecendo no meio dos carros, atravessando a rua, e parando diante de um ponto de ônibus super lotado.

“Dezessete e cinqüenta”, disse a caixa, mas Marina estava distraída. Impaciente, a moça repetiu com mais veemência. “Dezessete e cinqüenta”. Marina abriu a bolsa, pegou a carteira e tirou o dinheiro trocado dali. Uma nota de dez, uma de cinco, uma de um, e três moedas de cinqüenta centavos, que ela fez questão de ser livrar. Apanhou suas compras – vários pacotes de macarrão instantâneo, sabor galinha e carne, iogurte, sucrilho, açúcar e duas garrafas de refrigerante dois litros.

Na rua, ouviu alguém gritando e em seguida tocando seu ombro. “Ei moça!”, gritava o homem, mesmo estando imediatamente atrás de Marina. “Ei moça!”, disse ele novamente, antes que ela se virasse. “Seu troco, moça. Esqueceu seu troco no supermercado”. “Esqueci?”, pensou ela, agora olhando para o homem, fardado, com um quepe azul marinho, a mesma cor da farda.

“Não foi a senhora quem esqueceu. Foi a moça do caixa que esqueceu de dar o troco e me pediu pra correr atrás da senhora”.

“Ela deve ter se enganado. Eu dei o valor trocado para ela. Dezessete e cinqüenta.”

“Pois foi a quantia que ela me pediu para entregar para a senhora.” Ele esticou a mão para ela e abriu-a. Ela viu uma moeda de cinqüenta centavos. Não quis pegar a moeda. “Não é minha, tenho certeza. Ela se confundiu.”

“Desculpe, moça. Ela me pediu pra entregar. Eu não sei quem de vocês duas está enganada. Aqui está o moeda.”

Marina olhou por alguns instante a moeda na mão do segurança do supermercado. Olhou para o rosto dele, de traços suaves e jovial. “Quantos anos ele deve ter? Não mais que vinte e cinco. Onde será que mora? Será casado?”

“A moeda”, ele disse, olhando fixamente para os olhos dela.

“Obrigada”, disse Marina, sem desviar seu olhar do olhar dele. “Pode ficar com ela”, disse, mas se arrependeu em seguida, com medo que isso o ofendesse. Tentou corrigir. “Devolve pra moça do caixa. Ela deve ter feito confusão. Quando ela fechar o caixa quem sabe ela descobre a diferença.”

“A senhora é quem sabe. Se prefere assim…”. Ele fez um aceno de cabeça, agradecendo, virou as costas e se foi. “Não precisa agradecer”, ela quis dizer, mas ele já estava longe. Seus dedos começaram a doer, devido ao peso das duas garrafas de refrigerante. “Nossa, nunca tinha reparado nesse sujeito. Que distraída eu sou.” Esperou o jovem desaparecer no meio da multidão, e continuou a seguir para casa, com aquele rosto ainda em seu pensamento. “Como posso ser tão distraída”, pensou ela novamente, antes de acenar para o porteiro do prédio, que prontamente abriu o portão.

Marina entrou, foi até o elevador, esperou pacientemente, entrou, e apertou o numero onze. Chegou no décimo primeiro, saiu do elevador, seguiu até a escada e desceu um lance, em plena escuridão, até o décimo, onde morava. Tocou a campainha.

Marina morava com a tia, num apartamento de quatro quartos, todos sublocados para outras garotas. Foi uma delas quem atendeu a porta. Marina não reconheceu. “Você deve ser a Marina, sobrinha da dona Lígia”, ela concluiu. Marina disse oi e foi para o quarto, levando suas duas sacolas. “Quer uma ajuda?”, perguntou a moça, mas ela já estava na porta quarto. Depositou as sacolas no chão, pegou suas chaves e abriu a porta, sob o olhar atento e curioso da nova inquilina de dona Lígia. Marina olhou para ela, distraída. Tentou ser simpática. “Tem um nome?” Com a voz tremula, ela respondeu: “Helena”. “Oi Helena”, disse Marina, mas logo entrou no quarto, sem dó nem piedade, deixando Helena parada na sala, olhando para o corredor e para a porta do quarto de Marina, se fechando em seguida. Helena, com a voz ainda trêmula, e quase com lágrimas nos olhos, recém chegada sabe-se lá de onde, respondeu para ninguém, olhando o corredor vazio: oi.