24
fev
10

O senhor patrão

    Primeira Cena

    PATRÃO – (Olhando as folhas no chão) Foi o inverno quem fez essa sujeira toda. Foi o inverno! Esse cheiro horrível! É a umidade da terra, decompondo as folhas das árvores que o vento derrubou. O vento! Também foi o vento quem fez essa sujeira. O chão escorregadio, frio… São essas malditas folhas que essas malditas árvores deixaram o vento derrubar. Cristo! Tudo aqui se rebela! Todos se uniram pra que essa paisagem se tornasse fedida, desagradável… e fria. Como eu posso sair de casa, com tudo isso unido contra um pobre coitado como eu? (Senta-se) É preciso de alguém pra cuidar disso tudo. Alguém que limpe essa sujeira toda. E além disso, alguém que possa me preparar o chá. (Abre o jornal e inicia a leitura) Vende-se um torrador de café. O que é que eu faço com um torrador de café? Há que distancia daqui estará plantado algum pé de café? Inútil. (Vira a página) Troca-se um alçapão. Troca-se? Trocar por o que? (Olhando em volta) Por uma panela velha? E o que se faz com um alçapão? (Faz silêncio, tentando ouvir alguma coisa) Não ouço nenhum pintassilgo. Bobagem. (Vira outra página) Senhora de prendas doméstica oferece seus serviços. Pinta, borda, costura, cozinha, lava, engoma, cuida de enfermos. Dorme no emprego. (Curioso) Cuida de enfermos? Velhota imbecil. Por que não arranja alguém que prepare sua comida, costure suas roupas e engome seus saiotes? Mesmo que não seja enferma. Nada melhor que alguém pra nos fazer todo o serviço. (Coloca o jornal de lado) Cheiro dos infernos! Definitivamente, está uma imundice aqui. É preciso de alguém que faça o serviço. (Apanha o jornal novamente. Lê.) Não essa velha imbecil. Não preciso de alguém pra pinta, bordar, costurar, cozinhar, lavar ou engomar. Nem sou enfermo. Preciso de alguém que limpe essa sujeira toda, e me prepare o chá.
    Acende-se um foco de luz no lado direito do palco. A empregada entra, colocando-se sob esta luz.
    Um bom anúncio neste jornal me resolveria o problema, e me traria o remédio para o mal. (Olha as folhas espalhada.) Um anúncio como este! (Apanha a caneta e escreve sobre o jornal.) Velho enfermo, solitário, necessita quem lhe faça companhia, busque o jornal pela manhã, limpe as folhas que o inverno esparramou pelo chão… e lhe prepare o chá. Pode dormir no emprego. Não é um mal lugar. (Olha em redor, tapando as narinas.) Também pode não dormir. Dá-se toda liberdade para um folga semana sim, semana não. Paga-se… (Pensativo.) Razoavelmente… E que saiba preparar infusão de folhas secas. (Vê a empregada.) Pois não!
    EMPREGADA – É sobre o anúncio…
    PATRÃO – Você leu?
    EMPREGADA – No jornal.
    PATRÃO – Onde mais teria sido? Foi lá que eu o coloquei.
    Silencio.
    PATRÃO – Então?
    EMPREGADA – Sei cozinhar, lavar e passar. Não sou de falar, mas posso fazer companhia a qualquer um.
    PATRÃO – Já fez?
    EMPREGADA – Já, sim, senhor.
    PATRÃO – Quero referência.
    Ela apanha um papel no bolso do vestido. Não entrega.
    PATRÃO – O que mais?
    EMPREGADA – Posso buscar seu jornal e tudo mais que quiser. Só preciso que me explique bem o caminho, e se for possível, me faça um mapa. Não sou muito boa de memória. Sei ir, mas talvez não saiba voltar.
    PATRÃO – Posso fazer o mapa, porque não? Não me custa nada.
    Ela agradece, com um aceno de cabeça.
    PATRÃO – O que mais?
    EMPREGADA – (Falando baixo) Eu não entendi uma coisa…
    PATRÃO – (Provocativo) Hein?
    EMPREGADA – (Forçando a voz.) Eu não entendi uma coisa.
    PATRÃO – Não entendeu uma coisa? Que coisa?
    EMPREGADA – Fusão.
    PATRÃO – Fusão?
    EMPREGADA – Sim, senhor.
    PATRÃO – (Apanha o jornal e lê.) Você não sabe o que é infusão?
    EMPREGADA – Fusão, sim, senhor.
    PATRÃO – Infusão de água quente. Serve para preparar chá.
    EMPREGADA – Preparar chá?
    PATRÃO – Qualquer tipo de chá. Você nunca fez isso?
    EMPREGADA – Acho que não.
    PATRÃO –  Está aqui no jornal. Quero alguém que saiba preparar infusão de folhas secas. Você vem até aqui e me diz que não sabe?
    Ela não responde.
    EMPREGADA –  Se o senhor me ensinar…
    PATRÃO – Você veio aqui indicada por alguém?
    EMPREGADA – Não, senhor.
    PATRÃO – Alguém lhe falou que eu era professor?
    EMPREGADA – Não, senhor.
    PATRÃO – Eu também nunca contei pra ninguém. Nem que era doutor, advogado. Muito menos professor.
    Ela abaixa a cabeça. Tempo.
    PATRÃO – Quer que eu te ensine a ferver água?
    EMPREGADA – Fazer infusão…
    PATRÃO – Bobagem, menina. (Curioso.) Qual a sua idade? Você me parece bem nova.
    EMPREGA – Vinte e nove.
    PATRÃO – Quase trinta. Sabe ler?
    EMPREGADA – Aprendi e ler, sim. Não fui muito longe nos estudos, mas sei ler muito bem.
    PATRÃO – Não há muita coisa pra se ler por aqui. Um ou dois livros. (Procura-os.) E o jornal, claro. Gosta de ler jornal?
    EMPREGADA – Quase não gosto de ler.
    PATRÃO – Só lê o horóscopo.
    EMPREGADA – Quase não gosto de ler livro, jornal e horóscopo.
    PATRÃO – Menos mal, por que o jornal tem de chegar até aqui ainda úmido
    EMPREGADA – Como estas folhas.
    PATRÃO – (Estarrecido com a comparação.) Essas folhas fedem!
    • Sob o olhar ainda estarrecido dele ,ela se abaixa, apanha uma folha, amasse na mão, e cheira.
    PATRÃO – Então?
    EMPREGADA – Tem cheiro de folha úmida.
    PATRÃO – (Incisivo.) Tem cheiro de estrume! Isso vira esterco. Por isso é que fede.
    EMPREGADA – (Soltando a folha.) O cheiro que eu sinto é cheiro de folha seca e úmida.
    PATRÃO – Deixe essa sujeira pra depois. (Se recompondo.) Sobre isso podemos conversar mais tarde. (Olha as folhas, ainda perturbado.) Mora longe daqui?
    EMPREGADA – Muito longe.
    PATRÃO – Pode dormir aqui, se quiser. Não há grandes acomodações. Só uma cama, lá nos fundos.
    Ela fica calada.
    PATRÃO – Você dorme cedo?
    EMPREGADA – Posso terminar a arrumação depois que o senhor for dormir.
    PATRÃO – Não vou dormir muito tarde. Logo depois de fazer a revisão do jornal. Gosto de acordar sabendo o que aconteceu no dia anterior.
    EMPREGADA – É longe daqui?
    PATRÃO – O que?
    EMPREGADA – O lugar que tem o jornal.
    PATRÃO – Não é tão longe. É uma boa caminhada, mas não chega na sua casa. Acredito que seja na metade do caminho,
    EMPREGADA – É bem longe!
    PATRÃO – Se quiser, pode ir procurar outro emprego.
    Ela continua ali. Tempo. Ele lê.
    PATRÃO – (Pára de ler o jornal. Olha para ela.)  Pois não!
    EMPREGADA – É sobre o anúncio.
    PATRÃO – Está interessada?
    EMPREGADA – Estou sim, senhor. O senhor só tem de me ensinar como se faz infusão de folhas secas, e onde eu tenho de ir buscar seu jornal. É  longe daqui?
    PATRÃO – Bem longe! Você gosta de andar?
    EMPREGADA – Posso andar o quanto for preciso.
    PATRÃO – É preciso. É preciso, sim. O jornal tem que estar aqui logo cedo. Gosto de ler o jornal ainda úmido.
    EMPREGADA – Sim, senhor. E o chá?
    PATRÃO – O chá. Pode ser depois do jornal. Gosto de ler o jornal bebendo o chá. Você disse que não sabe preparar um simples chá?
    EMPREGADA – Eu sei preparar muita coisa. Molho de macarrão, sopa de legumes, torta de beringela e espinafre, bolinho de feijão, panqueca de queijo, pastel de palmito, pato com açafrão, molho de pimenta, tempero para carnes, frango à passarinho, feijão branco com dobradinha, torta de ricota e uva passa, quindim, merengue, baba de moça, brigadeiro…
    PATRÃO – (Enjoado.) Chega! Isso já está me dando azia. Tenho o estômago fraco. É por isso que só bebo chá.
    EMPREGADA – Só chá?
    PATRÃO – Pode ser com algum aromatizante.
    EMPREGADA – Só isso?
    PATRÃO – Qual o problema?
    EMPREGADA – Chá não alimenta.
    PATRÃO – Quem disse?
    EMPREGADA – Para alimentar tem que comer arroz, feijão, carne e verduras.
    Furioso, ele apanha o jornal e abre nos classificados.
    PATRÃO – Você leu o jornal?
    EMPREGADA – Não, senhor. Quem leu pra mim foi…
    PATRÃO – Está escrito aqui que eu preciso de uma nutricionista? Você  deve estar no lugar errado.
    Ele abaixa a cabeça. Silencio. Tempo.
    EMPREGADA – (Recitando) Velho enfermo, solitário, necessita quem lhe faça companhia, busque o jornal pela manhã, limpe as folhas que o inverno esparramou pelo chão, e lhe prepare o chá. Pode dormir no emprego. Não é um mau lugar. Também pode não dormir. Dá-se toda liberdade para um folga, semana sim, semana não. Paga-se razoavelmente. E que saiba preparar infusão de folhas secas.
    PATRÃO – E o quê?
    EMPREGADA – Que saiba fazer infusão de folhas secas.
    PATRÃO – Você sabe?
    EMPREGADA – Posso dormir aqui, se o senhor quiser.
    PATRÃO – Sabe fazer infusão?
    EMPREGADA – Posso aprender.
    PATRÃO – Está vendo mais alguém aqui, além de nós?
    EMPREGADA – Não, senhor.
    PATRÃO – Então, quem é que vai ensinar?
    EMPREGADA – (Gaguejando) O senhor.
    PATRÃO – (Olhando em volta.) Qual senhor?
    EMPREGADA – (Apontando para ele.) O senhor. Aí.
    PATRÃO – Eu?
    EMPREGADA – Quem mais?
    PATRÃO – (No ápice da sua fúria.) Arrogantes! Todos vocês! Arrogantes! O que é que estão querendo comigo? Infernizar minha vida? Primeiro esse maldito inverno, com essas malditas folhas, e esse maldito cheiro dos infernos! Que confusão é esta? O que é que vocês querem?
    A luz cai

15
set
08

Não vou chorar

Jairo, morador de um imenso predio com minusculos apartamentos, ouve diariamente uma musica que alguem repete constantemente, principalmente o refrão: “Não vou chorar”. Jairo não quer descobrir quem é que esta ouvindo. Só quer ter sossego quando chega do trabalho. Mas a musica toca a noite inteira. Algumas vezes colocam o refrão repetindo constantemente. Jairo enlouquece e começa a questionar quem é o maluco que ouve a mesma música constantemente. Começa a tentar buscar no predio vizinho um provavel morador. O ódio aumenta a cada dia. Começa a analisar a musica e acha que pode ser uma mulher, frustrada com um possivel rompimento. Deseja que ela acabe logo com esse martirio. Imagina que uma hora ela pode cometer um suicidio, pulando do predio. Pensando obsessivamente na musica e na mulher, ele passa a sentir compaixão pelo sofrimento dessa mulher. Tenta procura-la para oferecer ajuda. Mas como? O predio onde mora, e o predio vizinho são imensos. E ele não consegue definir de onde vem a música.

28
ago
08

Feriado (titulo provisório, claro)

Era feriado no dia em que ele decidiu pular. A rua estava tranqüila. Poucos carros transitando. Pedestres, nem pensar. A cidade inteira estava quieta. Menos ele, que minutos antes falava consigo mesmo sobre o propósito de sua decisão.

06
ago
08

Sites indiretamente relacionados

05
ago
08

Próximo conto: A moça do caixa



Com alguma dificuldade, o homem conseguiu retirar do carrinho um enorme saco plástico com um pedaço de porco dentro, ainda congelado. Janete acionou a esteira e ficou observando o pedaço de porco de aproximando lentamente, enquanto o homem colocava outras coisas sobre a esteira. Janete olhava apenas para o porco. Não havia ninguém mais além do homem. Ela olhou para o imenso relógio colocado do outro lado do supermercado, sobre a padaria e viu que ainda faltava 8 ou 10 minutos para encerrar seu turno. “Tudo pode acontecer” pensou ela, enquanto passava empacotava um pacote de farinha de mandioca. Poderia ser de milho, mas Janete não sabia a diferença entre as duas. Esperou o homem tirar o dinheiro da carteira, contar lentamente e entregar e ela o valor exato da compra. O homem pegou suas sacolas numa direção que ela não reparou. Ao terminar de contar o dinheiro percebeu que a havia uma moeda de cinqüenta centavos a mais. Tentou procurar o homem, mas ele já havia sumido, provavelmente em direção ao estacionamento. Pensou em ir atrás do homem, mas a chegada do supervisor de caixa a inibiu.

– Pode fechar seu caixa, Janete – disse ele, sem sequer olhar para ela, que também não se importou em fazer o mesmo.

03
out
07

Titulos para os contos

Penso em usar como titulo o nome do personagem de cada conto. Marina foi o primeiro.

03
out
07

Erros e futuras correções

Erros existem, eu sei. Publiquei o conto “Marina” sem fazer nenhuma correção. Publiquei logo depois de escrever. E será assim com todos. As correções serão feitas ao longo do tempo, depois de muita leitura. Alguns erros são absurdos? E daí?